domingo, 24 de março de 2013

Será que o papel da leitura na era digital corre perigo?



No especial da Veja A revolução do pós-papel da edição de 19 de dezembro de 2012, André Petry, correspondente internacional da revista, apresenta uma matéria que propõe esclarecer e desmistificar as mudanças e consequências que a transição da escrita para a era digital trouxe consigo. Sabiamente abre o primeiro parágrafo com Sócrates e suas considerações suspeitosas acerca da disseminação da palavra escrita. Grande defensor da tradição oral, o filósofo temia que os jovens perdessem o hábito de questionar e exercitar a memória, sendo a escrita um recurso tão gratuito. Para ele a irrupção do registro escrito não representava uma solução, mas sim o risco de a palavra deixar de transmitir a veracidade, passando a oferecer apenas a aparência da verdade.  
No entanto, no decorrer dos 2500 anos posteriores a escrita mostrou-se decisiva para o avanço das civilizações. Uma vez que as nações se desdobravam e evoluíam, a memória humana já não era mais meio viável para conservar suas trajetórias em amplitude e precisão. A escrita, então, surgiu como extensão, possibilitando os povos a eternizarem sua arte, história, pensamentos, transmitindo-os com maior exatidão e fiabilidade.
Agora, presenciamos um salto de proporção comparável ao advento da escrita. Na era digital o texto abandona o papel para buscar suporte nos gadgets: Players diversos, leitores digitais, tablets, smartphones e outros. A tela de cristal líquido surge, portanto, como rival – e possível substituta – do texto impresso. Trazendo consigo uma experiência de leitura inédita, o livro eletrônico oferece recursos antes impossíveis através do contato com a obra física. Os leitores digitais garantem acessibilidade ampliada entre o leitor e o texto, além de também facilitar a interação entre os próprios leitores, como por exemplo, a busca imediata de vocábulos desconhecidos; o compartilhamento de trechos sublinhados; a participação em comunidades discursivas, etc. Tudo isso por meio da conexão sem fio.
Outro apelo promissor é o “livro enriquecido”. À medida que o leitor progride sua leitura, o texto é incrementado com efeitos sonoros, imagens, música e demais atrativos. Todo esse avanço promete desvelar a atividade solitária da leitura, rompendo com a circunspeção e todo o processo imaginativo e interacional que acontece apenas na mente do leitor. Empresas como Google, Amazon e Apple podem bisbilhotar o que cada leitor sublinha, suas anotações, a velocidade com a qual lê determinados gêneros, suas preferências e hábitos de leitura. E ainda há o self-service literário. Dependendo da editora, os leitores podem inclusive intrometer no processo criativo, lançando sugestões que vão desde a trama até a aparência física do personagem. Tendo em mãos essa database riquíssima, é evidente que o mercado literário vê nisso a chance de melhor direcionar produtos, consequentemente engordando seus lucros. O público alvo está cada vez mais identificável, suas demandas cada vez mais escancaradas.
Toda essa paleta de novidades, com dinamismo e alcances aperfeiçoados, parece tornar os leitores digitais irresistíveis. Diante de toda essa parafernália tecnológica, o livro físico ganha ares de uma peça obsoleta, atrasada, prestes a desaparecer. O papel parece coexistir à margem dos aparatos tecnológicos, correndo o risco de perder seu prestígio secular. No entanto, os ratos de biblioteca, verdadeiros amantes da palavra escrita, mantêm-se resistentes ao avanço do livro digital. O tema está no auge da discussão dentro do círculo dos estudiosos, saudosistas e autores, não havendo ainda consenso definido.
O impacto do invento vem trazendo também à superfície a preocupação de críticos literários, como Sven Birkerts, que chama atenção para o perigo da deterioração da qualidade da leitura. Afinal, com tantos estímulos visuais e sonoros, não estaríamos sendo privados de exercitar nossa capacidade imaginativa? Há inclusive cientistas da neurologia cognitiva que estudam a probabilidade de a digitalização da leitura estar afetando a construção de nossos circuitos neuronais – células nervosas que sofrem influência do meio e são responsáveis pela plasticidade do cérebro em expandir suas possibilidades a partir da reorganização de suas estruturas. Mas com esses estudos ainda em andamento, não se pode afirmar até que ponto e de que modo a interação com o mundo digital interfere e modifica nosso cérebro.
Sabemos, entretanto, que a própria literatura vem sofrendo nítidas modificações, tanto de natureza artística como comercial. Dentro desse novo contexto as palavras de Sócrates parecem não soar tão equivocadas assim. Na era da informação, já é fato que a autonomia reflexiva entra no prelúdio do declínio. Os nativos digitais, em especial, sabem pouco sobre tudo, mas custam aprender muita coisa de algo em específico. Para eles informação já está coletada, macerada, fragmentada e disseminada. Não existe o esforço, muito menos a motivação de produzi-la, de ocupar o lugar da mente pensante por trás desse processo. É como se convencionassem a existência de um setor divino responsável pela criação desse material, e não coubesse a nós interferir.
O próprio valor artístico da literatura pegou carona nesse prelúdio. A começar pelo próprio caráter das obras de maior notoriedade atual. Não são leituras que exigem do intelecto muita concentração, bagagem de conhecimento ou processamento de ideias. O ato de não somente ler e decodificar palavras, mas praticar uma verdadeira imersão no texto lido, vem ganhando ares de uma tradição ultrapassada, um costume a ser conservado apenas na nostalgia do passado. É verdade que o ritmo de vida cada vez mais acelerado pouco instiga essa prática. Além de as escolas oferecerem instrução e preparo insuficientes para formar não apenas bons leitores, mas também interessados, motivadosproficientes. E em consequência da massificação da demanda literária, o leitor vem perdendo a perícia investigativa e a boa literatura ganhando caráter de presunção antiquada. Os aparelhos de leitura digital não acentuariam essa ameaça se não viessem carregados da bisbilhotice das grandes empresas; ou de um “enriquecimento” duvidoso que mais parece castrar a imaginação que estimulá-la.
Não decreto guerra ao livro digital. O indispensável é que haja uma reeducação antes de mergulhar a fundo nessas tecnologias. É preciso visão crítica para desfrutar com sabedoria das vantagens que essa tecnologia tem a nos oferecer. Não precisamos chegar ao ponto de banalizar a qualidade da leitura, tampouco participar do incentivo à prática que visa criar leituras descartáveis e substituíveis em curto prazo – por mais sedutoras que as novidades possam parecer ao primeiro contato. Mas podemos sim ter a portabilidade e a mobilidade do livro digital como alternativa conveniente às nossas necessidades.
Apesar disso, ainda é difícil imaginar a larga difusão da novidade no Brasil. O mercado dos livros digitais está em fase de crescimento e avança timidamente. A razão disso é o preço alto dos aparelhos e um serviço de conexão que não condiz com as exigências dessa tecnologia.
Além do mais, o público leitor continua devoto do papel. A preferência da maioria pelo contato físico com a obra resulta da intimidade entre a arte e o leitor. Adquirir a obra física é como ter perto de si um fragmento da sua magnitude, é como participar da sua trajetória. O livro digital, no entanto, ainda é insensível nesse ponto.

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